O Meu Conto de Natal: O Velho
Passeia-se e vive na zona chique das Avenidas Novas de Lisboa, em pleno século XXI. Tem quarto próprio na Av. Defensores de Chaves, junto ao luxuoso "health centre" Holmes Place. Por paredes, só duas e de vidro, ao que julgo. Tecto por acabar, cobrindo tão só meio quarto; cama exígua e feita de papelão com cobertura de trapo azul e branco, algures, em tempos idos, chamado de cobertor. Tem ainda algum cabelo e barba rala branca que, por vezes, poucas, surge aparada. O corpo é magro e seco, mas ainda anda a direito e com movimentos firmes.
Não, não se trata de um drogado ou de um bêbado. Por vício, se é que a tanto luxo o Velho se pode dar, é o cigarro ao canto da boca. Suponho que os pobres pulmões devem ser negros como as noites da Av. Defensores de Chaves, em Lisboa.
Fala-me todos os dias - bom dia, boa tarde, boa noite, até amanhã. Insiste e nisso é chato, em ajudar-me a entrar e a sair da garagem, esquecendo-se, por vezes, de sair da frente do carro. E, acaba sempre por proferir umas frases incompreeensíveis. Ultimamente, fala muito do frio e da chuva...
Pois, a cabeça do Velho está com defeito! Alguém que, ocasionalmente o oiça poderá comentar que "já não carbura bem". Mas, aqueles que o conhecemos de há talvez uns três anos acenamos e dizemos a tudo que sim. Damos também, pelas Festas (Natal, Páscoa) uma nota daquelas que não nos fazem falta, bem como uns casacos, sapatos, pullovers que, de outro modo, iriam parar ao lixo.
Se ainda estão a ler, não estranhem que não vos diga o nome do Velho. Desconheço... mas, julgo um dia ter ouvido dizer que teria sido da GNR ou militar em qualquer ex-província ultramarina e que estaria à espera de uma reforma. De origem ou famíla, nada!
Mas este Velho, para mim, é especial. Não porque me vá fazer parecer bom Samaritano ou homem piedoso. Nada disso. Por aquilo que já leram, trato-o como quase todos os transeuntes da Av. Defensores de Chaves o fazem. Porque não nos faz mal, é bem educado, não pede esmola e, enfim, é um pobre diabo! Por isso, daqui não vai sair peditório para o Velho.
Simplesmente faço questão que neste blogue onde já falei de Atahualpa, Simão Bolívar, Pablo Neruda, Karl Popper, Franklin Roosevelt, Jorge Sampaio, Cavaco Silva, José Saramago e tantos outros, o Velho tenha também o seu lugar. E com destaque!
Lamento que o meu conto não tenha aquele final feliz que todos nós sempre desejamos e lamento ainda mais que não seja um conto.
Porque o Velho, em destaque no Pateira, é bem real.
Se o virem, na chique Avenidas Novas de Lisboa, século XXI, olhem-no bem. Afinal, a maioria de vós, meus queridos leitores, não tem direito sequer, a uma pequena menção neste blogue.
Ah, e, por favor, cumprimentem-no, porque ele é bem educado.
Nota: A imagem é de um auto-retrato de Vincent Van Gogh, 1889; Musee d'Orsay, Paris

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